Pasmado: o morro que o Rio atravessou
Publicado em 24 de Setembro de 2026 às 12:01 PM
Antes dos túneis, das grandes avenidas e do intenso movimento que hoje marca Botafogo, a paisagem da região era muito mais condicionada por sua geografia natural. Entre praias, encostas e áreas verdes, uma das referências mais marcantes era o Morro do Pasmado.
A história dessa elevação ajuda a entender uma das grandes transformações urbanas de Botafogo no século XX. À medida que a cidade crescia e as ligações entre os bairros da Zona Sul se tornavam mais importantes, a geografia deixava de ser apenas parte da paisagem e passava também a representar um desafio para a circulação.
Mas o Rio não derrubou o Morro do Pasmado.
A cidade passou por ele.
Na década de 1940, avançaram os projetos para a construção de um túnel que permitiria uma nova ligação viária entre Botafogo e a região de Copacabana. As obras do Túnel do Pasmado transformaram profundamente o entorno do morro e criaram uma nova passagem através da elevação.
Inaugurado em 1952, o Túnel do Pasmado tem cerca de 220 metros de extensão e liga a Enseada de Botafogo à Avenida Lauro Sodré. A obra permanece até hoje como uma das conexões viárias entre Botafogo e a Zona Sul.
A construção modificou também a paisagem da superfície.
Um dos elementos mais conhecidos do antigo Botafogo desapareceu nesse processo: o Pavilhão Mourisco, construído no início do século XX junto à praia. Na década de 1950, o edifício foi demolido para dar espaço às obras relacionadas ao Túnel do Pasmado.
E existe um detalhe particularmente curioso registrado em uma publicação de 1949.
As pedras retiradas das obras do Túnel do Pasmado e do túnel Catumbi–Laranjeiras foram utilizadas no aterro da Praia de Botafogo. O material retirado durante as escavações, portanto, acabou sendo incorporado às transformações físicas que estavam redesenhando aquela parte da cidade.
É um daqueles detalhes que ajudam a perceber como uma cidade pode ser literalmente construída a partir de sua própria transformação.
Mas a história do Morro do Pasmado não se resume à engenharia.
Enquanto o túnel representava uma nova etapa da transformação urbana, o próprio morro era também espaço de moradia. Nas décadas de 1940, 1950 e início dos anos 1960, existia ali uma favela que fazia parte da paisagem social de Botafogo.
Em 1964, essa comunidade foi removida. Pesquisas sobre o período registram que cerca de 2 mil moradores deixaram o Morro do Pasmado e que, após a saída da população, as casas da encosta foram incendiadas.
O morro, entretanto, permaneceu.
Essa é justamente uma das diferenças fundamentais entre a história real do Pasmado e a imagem que às vezes se cria ao olhar para as grandes transformações urbanas do Rio de Janeiro. A montanha não desapareceu: foi atravessada por uma obra de engenharia, teve seu entorno profundamente modificado e testemunhou a remoção de uma comunidade que fazia parte de sua história.
Hoje, quem passa por Botafogo talvez veja apenas uma via movimentada, um túnel e uma paisagem urbana consolidada.
Mas, sob esse cenário, permanecem diferentes camadas da cidade: o antigo relevo, as obras de infraestrutura, os aterros, os edifícios que desapareceram e as histórias das pessoas que viveram naquele espaço.
Botafogo não foi simplesmente construído sobre uma paisagem antiga.
A paisagem foi sendo transformada, atravessada e reconstruída ao longo de décadas, e o Morro do Pasmado continua ali, como uma das testemunhas dessa transformação.
Fontes
Prefeitura do Rio — Túnel do Pasmado:
https://www.rio.rj.gov.br/web/guest/exibeconteudo?id=4437402
Biblioteca Nacional — Hemeroteca Digital:
https://hemeroteca-pdf.bn.gov.br/025909/per025909_1949_00046.pdf
Brasiliana Fotográfica — Biblioteca Nacional:
https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?tag=pavilhao-mourisco
PUC-Rio — Pesquisa acadêmica:
https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/16168/16168_5.PDF