facebook_pixel

Blog


Glória: o bairro onde até o mar mudou de lugar

Publicado em 29 de Setembro de 2026 às 01:29 PM

 

Quem caminha hoje pela Glória encontra um pedaço da Zona Sul onde diferentes épocas do Rio parecem ocupar o mesmo espaço. Igrejas históricas, construções do início do século XX, jardins, metrô e a proximidade com a Baía de Guanabara formam uma paisagem conhecida. O que nem sempre é evidente é que a geografia dessa região já foi bastante diferente. Ali, a relação entre a cidade e o mar mudou profundamente ao longo do tempo.

 

Uma litografia de aproximadamente 1860, preservada pela Biblioteca Nacional, mostra a Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro ainda muito próxima da Baía de Guanabara. A própria instituição registra que a construção da Avenida Beira Mar e, mais tarde, o Aterro do Flamengo afastaram a linha costeira. Outros registros históricos mostram praias que desapareceram ou foram profundamente modificadas pelos aterros.

 

Uma das melhores pistas dessa antiga geografia continua na Rua da Glória. O Chafariz da Glória data de 1772 e fazia parte do abastecimento de água da população. O guia de bens tombados da Prefeitura do Rio registra de forma direta que o monumento ficava à beira-mar, no início do caminho em direção à Zona Sul. Hoje cercado pela cidade, ele ajuda a dimensionar o quanto aquela paisagem se transformou.

 

A história da região começa muito antes dessas mudanças urbanas. Em janeiro de 1567, a área esteve ligada aos confrontos que terminaram com a expulsão dos franceses e de seus aliados tamoios da Baía de Guanabara. Segundo a MultiRio, Estácio de Sá foi ferido durante a Batalha de Uruçumirim no sopé do morro onde hoje está o Outeiro da Glória. O confronto ocorreu por uma área mais ampla, associada também ao atual Flamengo, e Estácio morreu no mês seguinte.

 

Mais tarde, o Outeiro ganharia a construção que se tornou um dos grandes símbolos da região. A Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro teve sua construção concluída em 1739. Com a chegada da corte portuguesa ao Rio, o templo ganhou ainda mais prestígio.

 

Em 1819, a princesa Maria da Glória foi levada por seu avô, D. João VI, ao Outeiro para uma cerimônia de consagração. Filha de D. Pedro e Leopoldina, ela se tornaria Maria II, rainha de Portugal. A ligação com a família Bragança ajudou a consolidar a igreja entre os espaços religiosos de destaque do Rio no século XIX.

 

Quem circulasse pela Glória naquele século também encontraria uma construção que desapareceu da paisagem. Um novo Mercado da Glória foi construído em 1858 depois de intervenções realizadas na região. O Instituto Moreira Salles conserva uma fotografia de 1904 que registra sua demolição, com o Outeiro da Glória ao fundo. O mercado foi derrubado durante as reformas urbanas do início do século XX.

 

Pouco depois surgiria outro marco que permanece no bairro. O Relógio da Glória foi inaugurado em 15 de abril de 1905 durante a administração de Pereira Passos. Em 2025, quando o monumento completava 120 anos, a Prefeitura do Rio informou que seu mecanismo original permanecia em funcionamento e que ele é o único relógio da cidade a conservar essa característica.

 

As mudanças na costa continuaram. A Praça Paris foi erguida sobre um aterro feito diante da antiga Praia da Glória. Fotografias preservadas pela Brasiliana Fotográfica mostram a transformação dessa área durante a década de 1920. Com jardins de inspiração francesa, a praça passou a integrar uma região que décadas antes tinha uma relação muito mais direta com as águas da Baía de Guanabara.

 

Essa referência à França ainda ganharia um capítulo curioso. O Rio tem sua Praça Paris e Paris passou a ter uma praça dedicada ao Rio de Janeiro. Segundo a própria Prefeitura parisiense, em 1948 representantes brasileiros lembraram que uma importante praça carioca levava o nome da capital francesa. A proposta de homenagear o Rio foi aprovada e, em 1949, surgiu oficialmente a Place de Rio-de-Janeiro, no 8º arrondissement.

 

Outra construção marcante surgiu na Glória no início do século XX. O Hotel Glória abriu em 15 de agosto de 1922, no período das comemorações do centenário da Independência do Brasil. A Brasiliana Fotográfica registra Joseph Gire e Sylvio Riedlinger como os arquitetos responsáveis pelo projeto. O edifício se tornaria uma das construções mais reconhecíveis daquela parte da cidade.

 

A chegada do metrô acrescentou mais uma camada a essa história. Em 1979, a Estação Glória integrou o primeiro grupo de cinco estações do sistema carioca, ao lado de Cinelândia, Central, Presidente Vargas e Praça Onze.

 

Talvez seja justamente essa mistura de épocas que torne a Glória tão particular. Em poucos quarteirões convivem uma igreja concluída no século XVIII, um chafariz que já esteve à beira-mar, registros de um mercado desaparecido, um relógio centenário, jardins construídos sobre aterro e edifícios que acompanharam diferentes momentos da expansão do Rio.

 

A Glória atual não apagou completamente o que existia antes. Em muitos pontos, a cidade simplesmente cresceu e se transformou ao redor dessa história. E talvez a imagem mais interessante para compreender o bairro seja também a mais simples: onde hoje existe uma paisagem urbana consolidada, o mar já esteve muito mais perto.



Fontes consultadas

Biblioteca Nacional Digital, Praia da Glória por volta de 1860. É a fonte mais direta para a afirmação sobre o afastamento da linha costeira.
https://bndigital.bn.gov.br/exposicoes/sisson-200-anos/mapa/

Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, Prefeitura do Rio, Guia de Bens Tombados. Registra que o Chafariz da Glória, de 1772, ficava à beira-mar.
https://irph.prefeitura.rio/wp-content/uploads/sites/65/2022/11/guiatombamentoport20.12baixa.pdf

Brasiliana Fotográfica, Fundação Biblioteca Nacional e Instituto Moreira Salles, Praça Paris. Confirma que a praça foi erguida sobre aterro diante da antiga Praia da Glória.
https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=30682

MultiRio, Prefeitura do Rio, Batalha de 20 de janeiro de 1567. Fonte para Uruçumirim e o ferimento de Estácio de Sá próximo ao atual Outeiro.
https://multirio.rio.rj.gov.br/index.php/historia-do-brasil/rio-de-janeiro/2427-a-batalha-de-20-de-janeiro-de-1567

Imperial Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro. Histórico da conclusão do templo em 1739, da chegada da família real e da consagração de Maria da Glória em 1819.
https://outeirodagloria.org.br/historia/chegada-da-familia-real-portuguesa/

Instituto Moreira Salles, Acervo Fotográfico. Registro da demolição do Mercado da Glória em 1904 e histórico do mercado construído em 1858.
https://acervos.ims.com.br/index.php/Detail/objects/525265

Arquivo Geral da Cidade e Prefeitura do Rio, Relógio da Glória. Confirma a inauguração em 15 de abril de 1905.
https://prefeitura.rio/cidade/arquivo-geral-da-cidade-relogio-da-gloria-foi-inaugurado-ha-118-anos/

Secretaria Municipal de Conservação, Prefeitura do Rio. Fonte de 2025 que confirma a preservação do mecanismo original do Relógio da Glória.
https://prefeitura.rio/conservacao/proximo-de-completar-120-anos-relogio-da-gloria-passara-por-manutencao/

Ville de Paris, Prefeitura de Paris. Confirma a história da criação da Place de Rio-de-Janeiro e sua inauguração em 1949.
https://www.paris.fr/pages/a-la-decouverte-de-ces-bresiliens-auxquels-paris-rend-hommage-29779

Ville de Paris, pesquisa histórica nos registros do Conselho Municipal. Confirma que a denominação da Place de Rio-de-Janeiro foi aprovada após a referência brasileira à Praça Paris e formalizada em 8 de abril de 1949.
https://www.paris.fr/pages/parhistoire-repond-a-vos-questions-sur-le-patrimoine-et-l-histoire-de-paris-3568

Brasiliana Fotográfica, Hotel Glória. Confirma abertura em 15 de agosto de 1922 e os arquitetos Joseph Gire e Sylvio Riedlinger.
https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=10242

MetrôRio, Estação Glória. Confirma que a estação foi inaugurada em 1979 junto às outras quatro primeiras estações do sistema.
https://www.metrorio.com.br/Estacoes?p_ponto=19

 

Voltar