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Lagoa Rodrigo de Freitas: quando metade virou terra

Publicado em 05 de Outubro de 2026 às 02:36 PM

Olhar para a Lagoa Rodrigo de Freitas hoje dá a impressão de estar diante de uma paisagem que sempre teve aquelas dimensões. Mas não foi assim. Ao longo de mais de um século, sucessivos aterros alteraram profundamente suas margens. Dados oficiais apontam que o espelho d’água foi reduzido a aproximadamente metade de sua área original. 

 

Na prática, isso significa que uma parte considerável dos espaços que hoje fazem parte da paisagem ao redor da Lagoa ocupa áreas que, em outros momentos, pertenciam ao ambiente lagunar ou às suas margens alagadiças. A expansão urbana do Rio não aconteceu apenas ao redor da água. Em determinados pontos, ela avançou sobre ela.

 

Um documento de 1921 ajuda a entender a dimensão dessa transformação. Preservada pela Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, uma publicação daquele ano reproduz o projeto apresentado pela administração do prefeito Carlos Sampaio para a região. Entre as obras previstas estavam 5,1 quilômetros de cais de contorno e o aterro de 1.345.800 metros quadrados de margens baixas e alagadiças. 

 

O plano também previa canalizar cursos d'água, organizar a drenagem e abrir e arborizar logradouros nas áreas aterradas. Não é correto concluir que cada metro quadrado previsto naquele projeto tenha sido executado exatamente daquela maneira, mas o documento revela a escala com que a transformação da Lagoa era pensada no início do século XX. 

 

A relação da Lagoa com o oceano também foi modificada. Embora pareça um corpo d'água isolado entre bairros da Zona Sul, ela mantém ligação com o mar pelo Canal do Jardim de Alah. A Fundação Rio-Águas descreve atualmente o canal como responsável tanto pelo escoamento quanto pela troca de água com o oceano, importante para o equilíbrio do ecossistema. 

 

Essa conexão também tem história. Segundo documentação patrimonial da Prefeitura, o canal foi regularizado entre 1920 e 1922 pelo engenheiro Saturnino de Brito, justamente para melhorar a comunicação da Lagoa com o mar. Anos depois, a partir de 1938, seu entorno começaria a receber o conjunto de jardins que ficou conhecido como Jardim de Alah. 

 

Até o nome guarda uma curiosidade inesperada. O Instituto Rio Patrimônio da Humanidade registra que “Jardim de Alah” foi inspirado em um filme que fazia sucesso na época. O complexo de áreas verdes começou a ser implantado em 1938 e acompanhou o desenvolvimento urbano de Ipanema, Leblon e Lagoa.

 

Com o passar das décadas, a lógica começou a mudar. Em 1975, um decreto municipal passou a delimitar e proteger a superfície do espelho d'água. Em 1990, a Lagoa Rodrigo de Freitas recebeu tombamento municipal definitivo, acompanhado da criação de uma área de proteção de seu entorno. Era uma nova forma de olhar para uma paisagem que durante décadas havia sido modificada para abrir espaço à cidade. 

 

A mudança mais curiosa, porém, aconteceu recentemente. Depois de mais de cem anos de sucessivos aterros, a Prefeitura iniciou em 2023 um projeto para devolver pequenas áreas à Lagoa. No Parque do Cantagalo, cerca de 1.500 metros quadrados foram naturalizados, com alteração do trajeto da ciclovia em uma área que sofria com alagamentos frequentes. 

 

Em 2024, uma segunda intervenção, desta vez no Parque dos Patins, acrescentou aproximadamente mil metros quadrados ao processo. Somadas, as duas áreas representam cerca de 2.500 metros quadrados de naturalização. O objetivo não é simplesmente aumentar o espelho d'água, mas recuperar características naturais das margens, criar espaço para vegetação e fauna e lidar de maneira diferente com pontos sujeitos a alagamentos. 

 

Há uma ironia interessante nisso. Durante boa parte do século XX, a modernização daquela região significou conter, aterrar e redesenhar a Lagoa. No século XXI, uma das soluções adotadas para alguns desses mesmos espaços foi justamente retirar parte da infraestrutura construída e permitir que a água e a vegetação voltassem a ocupar terreno.

 

É difícil perceber tudo isso durante uma volta pela orla. A Lagoa parece perfeitamente encaixada entre Ipanema, Leblon, Gávea, Jardim Botânico e o bairro que leva seu nome. Mas essa moldura foi desenhada pela cidade.

 

A paisagem que se tornou uma das imagens mais conhecidas do Rio é, portanto, também resultado de sucessivas decisões urbanas. A Lagoa já foi consideravelmente maior, perdeu espaço para a expansão da cidade e agora vê pequenos trechos de suas antigas margens serem recuperados. Entender essa transformação muda até a maneira de olhar para ela: o contorno que vemos hoje não é apenas obra da natureza. É também parte da história urbana do Rio.

 

Fontes consultadas

 

Secretaria Municipal de Conservação, Prefeitura do Rio. “Lagoa Rodrigo de Freitas”. Fonte para a informação de que mais da metade da Lagoa foi aterrada.
https://conservacao.prefeitura.rio/voce-sabia/lagoa-rodrigo-de-freitas/

 

Instituto Estadual do Ambiente, INEA. Revista Ineana. Publicação técnica que registra a Lagoa como reduzida a cerca de 50% de sua área original e explica sua ligação com o mar pelo Canal do Jardim de Alah.
https://www.inea.rj.gov.br/wp-content/uploads/2019/01/Ineana01_web-2.pdf

 

Biblioteca Nacional, Hemeroteca Digital. Publicação de 1921 com a descrição das obras propostas para a Lagoa durante a administração Carlos Sampaio, incluindo cais de 5.100 metros e previsão de 1.345.800 m² de aterros.
https://hemeroteca-pdf.bn.gov.br/025909/per025909_1921_00024.pdf

 

Fundação Rio-Águas, Prefeitura do Rio. Monitoramento da Lagoa Rodrigo de Freitas e função atual do Canal do Jardim de Alah na ligação com o mar.
https://fundacaorioaguas.prefeitura.rio/noticias/fundacao-rio-aguas-trabalha-no-monitoramento-da-lagoa-rodrigo-de-freitas/

 

Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, Prefeitura do Rio. Guia de bens tombados, com informações sobre a regularização do Canal do Jardim de Alah por Saturnino de Brito em 1920/1922 e a implantação posterior do jardim.
https://irph.prefeitura.rio/wp-content/uploads/sites/65/2022/11/guiatombamentoport20.12baixa.pdf

 

Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, Prefeitura do Rio. Relatório 2021–2024, com histórico do Jardim de Alah, início de sua implantação em 1938 e origem cinematográfica de seu nome.
https://irph.prefeitura.rio/wp-content/uploads/sites/65/2025/01/Relatorio-IRPH-2021-2024_compressed.pdf

 

Instituto Rio Patrimônio da Humanidade. Legislação de proteção da Lagoa, incluindo o Decreto 130/1975 e o tombamento definitivo de 1990.
https://irph.prefeitura.rio/area-de-protecao-do-ambiente-cultural-2/

 

Prefeitura do Rio e Fundação Rio-Águas. Primeira etapa da naturalização, iniciada em 2023, com recuperação de trecho junto ao Parque do Cantagalo.
https://prefeitura.rio/noticias/plantio-com-a-comunidade-marca-fim-da-primeira-etapa-do-projeto-de-naturalizacao-da-lagoa-rodrigo-de-freitas/

 

Fundação Rio-Águas. Balanço do primeiro ano do projeto, com confirmação dos 1.500 m² naturalizados no Parque do Cantagalo.
https://fundacaorioaguas.prefeitura.rio/noticias/projeto-de-naturalizacao-da-lagoa-rodrigo-de-freitas-completa-seu-primeiro-ano-com-resultados-significativos/

 

Fundação Rio-Águas. Segunda etapa, no Parque dos Patins, com aproximadamente 1.000 m² e total de cerca de 2.500 m² naturalizados nas duas intervenções.
https://fundacaorioaguas.prefeitura.rio/noticias/prefeitura-do-rio-entrega-segundo-trecho-da-naturalizacao-da-lagoa-rodrigo-de-freitas/

 

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