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O Chão que Conta História: A Tradição do Piso Parquet na Zona Sul e Central do Rio de Janeiro

Publicado em 16 de Setembro de 2026 às 03:00 PM

 

Quem já pisou descalço no chão de madeira maciça de um apartamento antigo no Flamengo ou na Glória conhece essa sensação. Existe um estalo suave, uma temperatura acolhedora no toque dos pés e um perfume discreto de memória no ar. O piso parquet, chamado carinhosamente de taco ou parquê, é muito mais do que um simples revestimento. Ele é a espinha dorsal da arquitetura residencial carioca do século passado, resistindo ao tempo com uma elegância que o porcelanato moderno jamais conseguiu replicar.

 

A trajetória dessa madeira no Rio ganhou força no Centro da cidade. Nas primeiras décadas do século vinte, impulsionado pela reforma urbana do prefeito Pereira Passos e pela forte influência europeia, o Rio queria ser a Paris dos trópicos. Os palacetes, repartições e edifícios da Cinelândia e da Lapa adotaram o parquet como símbolo máximo de sofisticação. O estilo veio da França, mas a matéria-prima era genuinamente nossa. Mestres artesãos usavam madeiras nobres brasileiras, como peroba-rosa, ipê, pau-amarelo e caxeta, criando desenhos geométricos e mosaicos que pareciam verdadeiras obras de arte no chão.

 

Com a expansão imobiliária rumo à Zona Sul entre as décadas de 1930 e 1960, o parquet conquistou definitivamente os lares cariocas. Nos apartamentos Art Déco e modernistas de Copacabana, Botafogo e Catete, as peças de madeira ganharam padronagens icônicas, como a espinha de peixe, a escama de peixe e o formato dama. O chão de taco virou o cenário silencioso da era da Bossa Nova, ajudando na acústica perfeita para ouvir um disco de vinil e mantendo o ambiente fresco no calor do verão e aconchegante nos dias mais frios.

 

O segredo da longevidade do parquet está na pureza da matéria-prima e na precisão do encaixe. Diferente dos pisos laminados atuais, a madeira maciça de antigamente aceita restauração. Um processo de raspagem bem feito, seguido pela aplicação de resinas modernas, devolve o brilho de novo e revela os veios originais de árvores centenárias.

 

Hoje, na onda de reformas que valorizam a memória afetiva no Rio, manter o parquet original virou sinônimo de luxo consciente e autenticidade. Preservar esse chão é manter viva a alma da arquitetura carioca, conectando o charme do passado ao aconchego do presente.

 

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